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Inteligência artificial ou nós: Quem é protagonista nessa nova realidade?

A introdução da inteligência artificial em uma interface intuitiva coloca um novo momento para o mundo, inelutável. Diálogos sobre a máquina e sobre nós se mostram mais que necessários, se mostram urgentes. Quanto mais negamos, evitamos, ignoramos, lutamos contra esse avanço, menos nos beneficiamos, mais riscos estão na mesa. 

Créditos da imagem: Kauê Peinado para Futuro Relativo

Não se trata mais de decidir SE usar a inteligência artificial, e sim COMO usar a inteligência artificial.

No texto “Inteligência Artificial“, de Ludger Hovestadt, ele menciona uma Revolução Digital Copernicana. Em sua abordagem, a definição para esse conceito se relaciona à ideia de que todos os problemas poderiam ser resolvidos por máquinas, no que ele chama de “mundo plano”, que seria um mundo sem a necessidade de considerar a complexidade do mundo real. 

Sem maiores aproximações, me parece que esta proposta já é problemática, já que, por mais que a gente queira ignorar essas complexidades do mundo, parece impossível… – e olha que às vezes a gente tenta bem, hein!

Mas uma vez levantada essa proposta, a provocação fica evidente. E deixando de lado o óbvio, tem algo a mais aí.

inteligência-artificial-começo

Começando do começo….

Com Copérnico, o Sol passa a ser o centro do universo, e não mais a Terra, o que muda completamente como encaramos o mundo, porque neste momento, vem a conclusão: Nós não somos mais o centro de tudo! Essa é a tal da Revolução Copernicana.

Daí a relação com Kant, um dos filósofos de destaque do Iluminismo do século XVIII, que comparando com Copérnico, deslocou o centro da investigação. Na verdade, a modernidade fez isso antes de Kant, mas com ele fica muito claro que agora o indivíduo está em perspectiva, e não mais o mundo, o objeto de observação não é mais “tudo que existe” e sim  “quem conhece tudo que existe“.

E vamos parar por aqui sobre Kant, concluindo que, grosso modo, antes de perguntar sobre o que é o mundo, temos que nos perguntar como conhecemos o mundo. E é aí que a provocação do texto de Hovestadt nos pega em cheio. Pensa comigo…

Se em Kant, o indivíduo fica no centro da investigação, o que ocupa esse lugar em uma “Revolução Digital Copernicana”?

O que diabos vai para o centro da nossa observação, no fim das contas?  Vamos propor um jeito de desatar esse nó: Se em Kant, o centro da investigação somos nós, indivíduos, não o mundo, ao colocar um “digital”, será que Hovestadt propõe que o novo objeto de observação, o centro de tudo, é a tecnologia? 

Se em Kant, tudo é como é porque nós conhecemos como conhecemos, será que hoje tudo é como é porque a tecnologia muda como conhecemos, então ela deveria ser o objeto da observação e não nós? Será que é sobre isso essa tal Revolução Digital Copernicana

De fato, a inteligência artificial muda como aprendemos, nos relacionamos, acessamos informações, trabalhamos, como, em última instância, nos construímos, à medida que nossas opiniões e, consequentemente, nossos valores são construídos. Ou não?

“Revolução Digital Copernicana”: vamos puxando o fio…

Então tá certo, partindo da inteligência artificial como objeto de investigação: Se ela aprende a partir de nós, de algoritmos que são desenhados por nós, de dados que são coletados e disponibilizados por nós. Então, em grande medida, somos responsáveis pelo que a máquina produz. E será que estamos comprometidos com o que comunicamos ao mundo?

Talvez a pluralidade que constitui nossa sociedade não permita que tenhamos conclusões unívocas sobre muitos assuntos. Então como é que fica o produto dessa IA?

Na prática…

Para clarificar, pense nas descobertas científicas do passado. Não podemos dizer que cientistas lá atrás divulgaram mentiras, podemos dizer que muito foi superado, mas não eram mentiras. Certo? “Era o que tinha pra ontem”. 

E… se foi superado, quer dizer que temos que suprimir as divulgações de outrora? Porque se a IA aprende com dados que nós deixamos disponíveis, deixar disponíveis dados que foram superados, seria deixar disponível um conhecimento que não é mais verdadeiro, uma mentira?

Mas olha só… outro problema se coloca então: o critério de verdade.

inteligenci-artificial-conversa

E aí é que mora o compromisso com o processo de investigação, não só com a conclusão, a honestidade de dizer como chegamos às conclusões que chegamos ou, pelo menos, deixar claro que o que comunicamos é uma opinião particular, que nem se pretende justificar, o bom e velho “Eu só tô dizendo um troço aqui, pega leve.”. 

…Então será que deveríamos impedir que algo seja comunicado se for só uma opinião porque senão as máquinas vão aprender com opiniões e não com informações honestamente justificadas? O problema parece não ter fim… E realmente não acho que tenha, pelo menos não ainda, e é por isso que temos que falar sobre isso, falar muito.

Tá, mas e a tal da Revolução Digital Copernicana?

Talvez, no limite, a Revolução Copernicana ainda seja a de Kant, onde tenhamos que olhar para nós mesmos para entender como conhecemos as coisas.

Talvez a IA seja mais uma condição de possibilidade de conhecer as coisas, não necessariamente como Kant coloca, – e vamos deixar esse negócio de “condição de possibilidade em Kant” para um outro momento – , mas parece, no fim, que a máquina pode ser encarada como uma extensão do nosso pensamento, da nossa mente.

Por mais que esses conceitos de “mente” e “pensamento” continuem sendo  nebulosos para nós, o fato é que são coisas próprias de nós. Então, talvez sempre sejam eles que precisem estar no centro de tudo, logo, nós. De novo. 

A inteligência artificial não está para nós como um oráculo para os antigos, está para nós como mais uma forma de conhecer que, deve ser, sim, colocada como objeto fundamental de observação, mas antes dela, e sobretudo, parece que estamos nós. Análogos, digitais, mas sempre nós. Ou não?

Flaw Bone

Flaw Bone

Pesquisadora, curiosa e comunicadora | Filosofia Prática - UFRJ 🙃
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