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O que a inteligência artificial vê sobre nós?

Recentemente um artigo chamado “Seeing the World through Your Eyes“, de alunos da Universidade de Maryland, trouxe os resultados de um experimento com inteligência artificial mostrando que é possível ver o mundo através dos olhos de outra pessoa.

Como funciona essa Inteligência Artificial?

Sequências de imagens dos reflexos registrados nos olhos de uma pessoa em movimento foram capturadas por uma câmera em posição fixa, sendo possível coletar múltiplas visões de uma cena.

A ideia foi utilizar esses reflexos para obter informações sobre essa cena que estão fora da linha de visão direta da câmera, por qualquer razão, inclusive quando essa cena está obstruída por algum objeto.

A partir dessa captura de imagens pelos olhos de alguém, foi possível reconstruir, em 3D, a cena que a pessoa viu, mesmo que a câmera não pudesse captar diretamente a cena.

Tem lá suas limitações ainda, mas isso já é bem interessante se pensarmos que estamos vendo o mundo pelos olhos de outra pessoa, mas…

Tudo tem limite!

Pela primeira vez, nos aproximamos da subjetividade alheia. E embora isso seja algo do âmbito material, nos leva a pensar o quão próximo podemos chegar realmente da subjetividade do outro.

Me fez lembrar do famoso artigo, de 1974, do Thomas Nagel, “What Is It Like to Be a Bat?“, onde o filósofo americano usa o exemplo de um morcego para argumentar que, embora possamos entender profundamente a estrutura física e o comportamento de um morcego, esse conhecimento será sempre de uma perspectiva objetiva, onde nós observamos um morcego, mas jamais podemos realmente saber o que é a experiência subjetiva do que é ser um morcego. 

Ou seja, eu posso saber tudo sobre ser um morcego, mas eu não sou um morcego para saber integralmente o que é ser um morcego, porque eu só poderia conhecer a totalidade sobre ser um morcego sendo um morcego, e não o tendo como objeto de observação. 

Isso quer dizer que a experiência de ser morcego ou ser um humano impacta o conhecimento sobre “ser morcego”.

novidade-da-inteligencia-artificial

Podemos dizer então que, para Nagel, a consciência é fundamentalmente uma questão de perspectiva subjetiva, e é impossível nos colocarmos na “perspectiva subjetiva” de outra criatura. Aí que a coisa fica boa…

Vem a tecnologia e diz que dá pra ver o mundo pelos olhos de outra pessoa! Mas não dá!

Pelo menos até agora, não existe como construir o que, embora seja insuficiente, poderia nos dar um vislumbre do que é ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. A reconstrução do olhar do outro no aspecto material muda pouco a nossa compreensão sobre o que é ser o outro. 

O único meio de se aproximar da visão de mundo do outro é, antes de tudo, reconhecer que todos somos seres singulares, e é essa singularidade que subjaz à materialidade, sempre. E isso parece que jamais poderá ser desvelado integralmente por outro ser que também é singular. (Ou será que um dia será possível? Sei lá. Que medo.)

O que estou tentando dizer é que por mais que compreendamos e até consigamos ver processos químicos, físicos e biológicos dos seres humanos por inteligências artificiais, tem uma barreira que parece intransponível (pelo menos eu acho que seja).

É coisa de uma palavrinha.

Tá na moda, mas não sei se está sendo incorporada em nossa vida cotidiana tanto quanto precisamos agora: empatia. Algo que é insuficiente, mas é o mais próximo para entendermos o que é ser o outro. 

Podemos aceitar IAs que descrevem, prescrevem, criam (e, consequentemente, que alucinam), e até umas que parecem prever o futuro… mas sempre parece que tem um abismo insuperável, isso que nem nós mesmos conseguimos definir, que é a nossa humanidade. A gente nem sabe dizer o que é, mas sabe que é coisa nossa.

Nossa humanidade abraça a singularidade, desautoriza um padrão unívoco para todos nós, e por mais que exista uma vontade e até uma necessidade de concordância, de imparcialidade, de tentativa de nos ver como iguais, a verdade é que não somos, nem nunca seremos. 

Talvez em algum momento possamos treinar as máquinas para terem empatia (que bom seria multiplicar isso, né?!), mas terá sempre que partir de nós, e nossa humanidade é que a exercerá da forma mais genuína, porque ser um indivíduo único, por definição, foge a padrões. E é por padrões que as máquinas funcionam.

Sempre tem um pouco de mim em tudo que eu falo, por mais neutra que eu pretenda ser, como sempre vai ter algo de você que está lendo. É quase uma co-criação. E fica claro algo importante para se pensar: imposições ao outro do nosso melhor jeito de viver é desonesto com a singularidade do outro e com a nossa humanidade

O que é bom para mim, pode não ser para o outro. Porque no fim, ninguém vai conseguir ver o mundo pelos olhos de outra pessoa, porque sempre estará vendo pelos seus próprios olhos.

Flaw Bone

Flaw Bone

Pesquisadora, curiosa e comunicadora | Filosofia Prática - UFRJ 🙃
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