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Por que cientistas estão deixando o Twitter? Quer dizer, X

O Twitter era conhecido por permitir acompanhar cientistas que eventualmente compartilhavam suas mais recentes descobertas, debatiam sobre nuances acadêmicas e falavam de assuntos pertinentes à sua área de atuação. Acontece que essa realidade parece estar mudando…

Quando Emilia Jarochowska, uma promissora paleontóloga, entrou no Twitter em 2016, estava cheia de expectativas. A plataforma não era só sobre conteúdo viral, para ela, era uma oportunidade de salvação acadêmica, dando a oportunidade de pesquisadores de todos os cantos do mundo se reunirem, compartilharem conhecimentos e fazerem networking.

Avançando alguns anos, Emilia, como muitos cientistas, decidiu abandonar sua conta no Twitter, porque diz estar cansada de navegar pelo “mar de trolls” e pela desinformação que parecia mais abundante do que antes. E, francamente, quem poderia culpá-la? Ninguém quer colocar sua reputação em risco, especialmente quando existe tanta controvérsia sendo exposta.

A situação de cientistas deixando a plataforma se intensificou em 2022, quando Elon Musk assumiu as rédeas do Twitter. A rede social como conhecíamos começou a se transformar diante dos nossos olhos. 

Sai “Twitter” entra “X”. E claro que mudança nem sempre é algo ruim, mas quando as mudanças envolvem reduzir a moderação de conteúdo prejudicial, abandonar o conhecido sistema de verificação “blue-check” e limitar a visibilidade do usuário, é certo que vai causar desconforto, principalmente entre cientistas.

Uma pesquisa da Nature nos deu uma visão dessa grande mudança. Eles consultaram mais de 170.000 cientistas: 50% admitiram terem reduzido seu tempo no Twitter – quer dizer, X. Outros 7% deixaram a plataforma de vez.

Então, para onde todos estão indo? O Mastodon parece ser o novo queridinho, seguido pelo LinkedIn e Instagram. E também há o Threads, que alcançou impressionantes 100 milhões de usuários em apenas cinco dias. No final das contas, não é só sobre para onde essas pessoas estão indo – é também sobre o que estão deixando para trás.

O que se perde com a saída dos cientistas do Twitter (X! … uma hora a gente acostuma!)

Quando o Twitter era tido como um local comum para acadêmicos, tudo era mais simples. Imagine uma grande conferência virtual onde você poderia passear por discussões sobre pesquisas inovadoras ou até encontrar possíveis colaborações. Mas agora, com cientistas espalhados por várias plataformas, é como se você estivesse fazendo malabarismo com várias credenciais de conferência e pulando de um local para outro. É exaustivo e desconexo.

O que se perde na verdade com essa saída massiva é uma voz acadêmica coletiva. O Twitter tinha se tornado uma força formidável, particularmente para aqueles em grupos sub-representados. Foi aqui que cientistas mulheres quebraram o silêncio sobre questões como assédio e desigualdade salarial. Cientistas de diferentes etnias tinham uma plataforma para se manifestar contra preconceitos arraigados.

Além disso, era um baú de tesouros para cientistas de dados e pesquisadores que dependiam da API aberta do Twitter para inúmeros estudos. Agora, com as recentes restrições de acesso, muitas dessas pesquisas estão no limbo.

Enquanto o futuro do X ainda é imprevisível, não quer dizer também que seja o fim das ciências nas redes sociais. Na verdade, talvez seja uma oportunidade disfarçada. Pesquisadores estão agora defendendo mais webinars, redes acadêmicas mais sólidas e networking criativo.

Uma observação de Emilia Jarochowska sugere que porque o Twitter colocava discussões científicas ao lado de vídeos fofos de gatos e memes, talvez não fosse o melhor lugar para uma academia séria, afinal de contas. É uma perspectiva, certo?

Mark Carrigan, um sociólogo digital, apontou que talvez seja hora de as redes e organizações convencionais darem um passo à frente. Com o Twitter, ou X, mostrando sinais de declínio, esses corpos tradicionais podem liderar movimentos de divulgação científica, liderando discussões acadêmicas para o futuro.

O papel das redes sociais para as ciências

Embora as redes sociais tenham seus problemas intrínsecos aos seus benefícios, é inegável que se tornaram um importante canal de divulgação científica ao público amplo, coisa que antes era impensável, devido ao difícil acesso a conteúdo acadêmico e ao rigor da linguagem, o que construia uma barreira entre entusiastas e autoridades em vários assuntos.

Os problemas sempre vão existir onde existirem seres humanos diferentes, com interesses diversos, com boas e más intenções em um mesmo ambiente, com e sem compromisso com a informação de qualidade, com posicionamentos divergentes… Não seria diferente no ambiente online. Na própria academia existe conflito, que dirá em um espaço aberto, onde todos falam o que querem.

As questões éticas que se colocam são muitas. Até que ponto é razoável filtrar o que pode ou não ser falado? Qual as medidas cabíveis para mitigar a propagação de informação falsa com intenções de manipulação que possam culminar em cenários caóticos? Como medir o compromisso com a verdade? Ou antes: O que poderia ser considerado verdade? 

Se algo puder ser refutado não pode ser divulgado no ambiente online (o que, aliás, seria um problema para a ciência)? Como identificar e absorver o que é uma opinião em oposição a uma informação que configura um conhecimento válido? É possível que uma plataforma tenha credibilidade para academia se for possível transitar entre conteúdos de entretenimento e de especialistas?

E como ficam os vieses? Ou antes: é possível falar sem um viés, visto que sempre se fala de uma perspectiva singular? Em vez de imparcialidade, o termo não seria honestidade? Sobre fontes, sobre opiniões, sobre o que quer que construa um conteúdo? 

No fim das contas, sempre estaremos olhando e interpretando o mundo, e falando sobre ele, sob a nossa perspectiva única. Até já falamos sobre isso. Você pode clicar aqui para ver. Dito isso… como lidar com o ambiente comum a tantas singularidades?

Talvez as questões que se coloquem possam apontar para nós mesmos antes mesmo de apontar para as políticas das plataformas. E talvez falar sobre isso nessas plataformas possa fomentar um pensamento crítico que favoreça a veiculação de conhecimento relevante e a clareza sobre quando um conteúdo for só questão de opinião. São questões complexas, de resoluções ainda mais complexas.

Se no Twitter (a gente já sabe, X…) ou qualquer outra plataforma, o fato é que independente de para onde estão indo especialistas, acadêmicos e cientistas, seguir o rastro deles permite que possamos acompanhar fontes confiáveis de informação. E isso pode mudar o jogo no campo aberto da propagação de desinformação, não é mesmo?

Fonte: Nature

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